Balburdiando


Eu na Cidade dos Sonhos.

Sexta-Feira, 1° de julho de 2011. 06:40 da manhã.

 “Você viu o que aconteceu?, minha irmã me pergunta.

“Não. O que?”, eu respondo.

“Viu sim. Levanta-te e escreva”, ela vaticina.

O despertador toca. Eu acordo assustado.

Levantei-me e agora estou aqui. Escrevendo.

Sei sobre o que tenho que escrever. Lógico que sei. Mas não sei se devo.

Certas coisas são tão acima do entendimento que não deveriam nunca ser escritas.

Mas vou escrever mais sobre as sensações do que qualquer outra coisa.

Ok.

Vamos lá.

Word aberta é hora de tentar colocar em palavras o imponderável.

Ontem assistir pela enésima vez o filme “Mullholand Drive” do diretor David Lynch e a se sensação de que nos instantes em que o filme se passa, eu presencio algo sublime é a mesma da primeira vez.

Sim. David Lynch é gênio. Direi isso várias vezes ao longo texto. Essa é minha única certeza. Minha bússola maior. Não direi isso gratuitamente. Direi simplesmente porque ele o é mesmo. “Mullholand Drive” ou “Cidade dos Sonhos” na tradução brasileira é um filme genial. Sim. Genial em sua simplicidade. David Lynch sabe que as coisas mais complexas de se “entender” são exatamente as mais simples. Aquelas coisas que nos deixam perplexos, com cara de meus deus que é isso? Lynch é assim. Simples e absolutamente genial.


Lembro-me até hoje da primeira vez que assisti “Cidade dos Sonhos”: Eu, moleque do interior, acabando de sair do terceiro colegial, acabando de descobrir a literatura por mim mesmo, “descubro” também a sessão de “filmes de artes” na locadora. Foi um desbunde. Chorei até não poder mais com Björk e Lars Von Trier em “Dançando no Escuro”. Impressionei com “Ken Park” de Larry Clark. Entrei em contato com a dor da existência de Bergman e seu “Gritos e Sussuros”. Fellini e “Noites de Cabíria” esfregaram na minha cara um possível retrato de mim mesmo. Mais ainda não tinha “descoberto” Lynch. Até que um dia que não me lembro exatamente quando, aluguei “Cidade dos Sonhos”. Lembro-me exatamente de que quando eu coloquei o filme para rodar era de madrugada e eu disse para mim mesmo que só veria os primeiros minutos para ver do que se tratava, depois iria dormir e veria tudo no dia seguinte. NÃO CONSEGUI. Logicamente não consegui. O filme me possuiu de uma maneira tão avassaladora que não desgrudava os olhos do que se passava ali na frente das minhas retinas. “Meu Deus, o que é isso?” me perguntava. “Cinema, então pode ser assim também?”. A perplexidade de não se entender direito aquilo que se sente abarcou-me inteiro. Era o filme e o filme era eu. Pronto. Camilla, Diane, Betty, Rita eram todos possíveis personas de mim. Aquela história intricada, complexa e aparentemente sem pé nem cabeça era a vida humana. Sim. É preciso que alguém diga: a vida não faz sentido nenhum. Nenhum. Apesar de não entender, eu entendia. Tudo. Absolutamente tudo. Por vias outras. Inúmeras e muito mais complexas, ágeis do que meramente o racional. Não. Tudo em mim fervilhava e queria desabrochar. Como se minha vida inteira tivesse sido uma preparação, um ensaio para aquele filme. E de repente ali ao dar de cara com aquele filme o processo iniciara-se. Esse homem é gênio. Assustado, peguei o encarte e li baixinho seu nome: David Lynch. Não o conhecia. Já disse que era então apenas um moleque do interior. E repeti para mim mesmo: David Lynch é gênio. Sem pausas para água, banheiro ou lanchinho, vi o filme num único sopro. O sopro da vida. De repente todo aquele roteiro complexo/simples/genial desemboca numa cena: “Silêncio! Silêncio! No hay banda. Silêncio!”. Uma das personagens verbaliza o inominável da existência. Uma das personagens convence a outra e também a mim que deveríamos parar de ver o filme e irmos até um lugar. Eu e as duas pegamos um táxi e desembocamos num tal de Club Silêncio. Lá um homem vestido de terno e gravata grita: “Não tem banda.Isso é só uma gravação”. O lugar é uma espécie de teatro. Mágico. Eu, Betty e Rita nos olhamos assustados. Uma mulher vestida de azul, com um cabelo esquisito está no alto do palco. Assiste tudo impassível. “Não há banda. E só uma fita!”, o homem de terno e gravata repete. “Tudo é ilusão”, ele sentencia. Luzes piscam incessantemente. Betty e eu trememos. Não sabemos bem porquê. Rita tenta nos segurar. O homem de terno e gravata sorri e some em meio a fumaça e a luz. Uma luz azul calma banha o palco. Eu e Betty paramos de tremer. Um homem trajando um terno todo vermelho adentra a cena. Engraçado. Eu conheço-o de algum lugar. Mas de onde, meu Deus? “Senhoras e Senhores, o Club Silencio apresenta “A Chorosa de Los Angeles”: Rebekah Del Rio”. O Homem diz e sai. As cortinas vermelhas e espessas abrem um pouquinho. Um foco de luz branco é acesso. Uma Mulher meio cambaleante sai detrás das cortinas. Aproxima-se do microfone e canta:

“Yo estaba bien por un tiempo,
Volviendo a sonreír.
Luego anoche te vi
Tu mano me tocó
Y el saludo de tu voz.
Y hablé muy bien de tu
Sin saber que he estado
Llorando por tu amor..."

Essa canção penso eu, essa canção eu conheço. É a minha vida. Eu nunca a ouvi, mas ela estava em mim. Esperando para nascer. Essa canção também sou eu. Impossível não chorar. E eu desabo num choro ancestral. Maior que todos. O choro do entedimento. Sim. Sim Lynch eu entendi. Tudo. Tudinho. Uma Caixa Azul aparece na bolsa de Betty. Corremos para casa. A chave azul que estava na bolsa de Rita é o encaixe perfeito da caixinha que acabamos de descobrir. De repente, Betty some. Tudo muda. Sempre. Ninguém é mais ninguém. Todos somos outros. Sempre. O filme então começa.

Sim. David Lynch é genial. E “Cidade dos Sonhos” é a sua obra-prima. Já perdi a conta de quantas vezes eu mostrei esse filme para amigos, alunos, possíveis amores... Mas ontem aconteceu algo especial: Exibimos o filme no Espaço A Coisa (espaço cultural de Ribeirão Preto) e logo depois tivemos comentários de Dr. Luis Henrique Milan Novaes, Psicanalista e Coordenador do Núcleo Tavola (Instituto de Formação e Pesquisa em Psicanálise) e Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomatica-Regional Ribeirao Preto. Foi um sucesso. Uma delícia. Nunca tinha assistido a esse filme com tanta gente. Foi uma experiência única. Regozijante. Todos em silêncio. Aquela escuridão. Só a luz do projetor. O próprio Espaço. Tudo era meio fantástico. Após o filme, os comentários do psicanalista foram pontuais. Ele não tentou explicar a obra. Isso foi o mais interessante. Dr. Luis Henrique fez apenas considerações psicanalíticas, pequenos comentários que só engrandeceram ainda mais (se é que é possível) o filme. Gravamos vídeos da conversa, depois posto no youtube. Vale muito a pena ver. Fim do evento. Todos se vão. Eu pago as luzes. Sim. Tudo é ilusão.

“Cidade dos Sonhos” guarda inúmeras semelhanças com a obra de outro gênio: Nelson Rodrigues. Outro mestre na abordagem de temas psicanalíticos e sublimes. “Vestido de Noiva”, talvez seja a obra que mais se pareça com a obra lynchiana, especialmente “Cidade dos Sonhos”. Para mim, ambas as outras tratam de ego ferido, psicótico, se o objeto do meu desejo não for meu, só meu, exclusivamente meu, não o será de mais ninguém. Ambas as protagonistas de Nelson e de Lynch são figuras insossas, sem brilho próprio que necessitam fantasiar a própria existência para que assim ganhe algum significado maior. Tanto no filme de Lynch quanto na peça de Nelson Rodrigues o que está em jogo é tudo aquilo que eu calo, que eu varro para o meu inconsciente, minhas sombras que teimosamente “optam” por ficar fora da luz da consciência. Ambas as protagonistas são figuras psicóticas. O conflito se dá entre o meu Ego versus o Mundo Externo. Sim. Elas repudiam a realidade e tentam incessantemente substituí-la.

Sim. David Lynch é genial. Nelson Rodrigues é ainda mais.

Depois do filme, sai para comer com uma amiga. Volto para casa. Durmo. Preciso dormir. Preciso entrar em contato novamente com aquilo tudo. Vou melhorar se dormir. Só vou deitar e dormir um pouquinho. SILÊNCIO!






Escrito por Mateus Barbassa às 08h40
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Carta Aberta Para um Amor Perdido.

Tá bom, vai... eu confesso: Sim. Sinto sua falta.

Eu pensava que você sempre estaria aqui comigo. Isso me confortava tanto.

Depois de tudo, eu fiquei perdido.

É tão estranho... foi tudo tão de repente, não?

Com que vou dividir os filmes, a poesia, a música?

Para quem vou mostrar aquela cantora sensacional que acabei de descobrir?

Hein?

E quem vai me abraçar quando eu me matar de chorar no cinema depois de um filme triste?

Hein?

E nossas risadas? Nossas brigas?

Quem mais vai me escrever um email dizendo “quando vc fica bravo, vc faz tanto drama que fica até engraçado. (Igual novela mexicana (MITCHONRRA)) .

Porém, eu prefiro seu humor, sua loucura saudável . E atenção : NÃO ESTOU ME REFERINDO À ALGUM PERSONAGEM SEU!!! Estou me referindo a um Mateus super alegre e agradável que existe dentro de vc. Ou melhor : Que é vc !”

 

Pois é... contigo eu nunca fiz personagem algum. Nunca consegui. Contigo, eu me abri inteiro. Mostrei-me sem medo ou reservas. Como talvez nunca tenha feito com ninguém. Você também, eu sei. Eu sentia. E agora? Por mais que eu tente desesperadamente matar tudo isso, eu NÃO CONSIGO! É mais forte do que eu.

Eu sei que sempre coloquei um pouquinho de idealização em você. Eu sei. Eu reconheço isso. Mas eu preciso disso. A realidade é demasiado forte para uma alma frágil como a minha. Só contigo eu podia me mostrar assim. Frágil. Sabe, muitos riem quando eu falo sobre a Cabíria, sobre a Macabéa, em quanto me identifico com elas. Algumas dizem que elas não têm nada a ver comigo. Mas é assim que me vejo. Poucos conhecem esse meu lado. Eu sei que não mostro assim para a maioria. Mas é assim que sou. Sim. Por isso sinto sua falta. Demais. Contigo ao meu lado, eu podia cometer minhas pequenas aventuras sexuais sem me preocupar se aquilo teria futuro, porque você estaria sempre comigo. E agora?

 Em cada nova aventura dessas, eu fico esperando encontrar você... Encontrar tudo aquilo que em você era certeza.

Quantas e quantas vezes eu imaginava a gente envelhecendo junto, trocando sabedorias juntos, dividindo dúvidas, anseios e banco de ônibus para São Paulo.

Para quem eu vou ligar chorando no meio do show da Maria Bethânia? Com quem eu vou dividir chocolate hersheys no cinema? Com quem? Me diz!

Me desculpa... eu sempre fodo com tudo. Eu sei. Tenho em mim essa necessidade de estragar tudo de belo e sublime. O que eu posso fazer?

Estou lendo um email seu de 2005, de uma briga nossa, em que você me escreveu: “Mais dia , menos dia, toda essa palhaçada voltará a acontecer.”

Dói sabe... Dói tanto.

Sabia que tenho tentado seguir suas recomendações?

Sim. Lembra que sempre no final de seus emails você escrevia:

 

“SE COMPORTE, SEJA BONZINHO COM AS PESSOAS .............”

 

Pois é, estou tentando. Desesperadamente. Queria ter me comportado e sido bonzinho para você. Mas sabe, eu acho que não sei conviver com essas coisas “boas”. Eu sou um artista. Preciso de certa dose de loucura, de caos, de maldade para criar. Me ensina?

Você tentou. Eu sei que tentou. Mas também sei que a “culpa” não foi só minha. Eu sei.

Mas às vezes penso que não te dei chance de se explicar. Fui tirando conclusões precipitadas. Ferindo tudo e todos. Aquele meu jeitão clássico. Mas a dúvida me consome. E se eu errei? E se não for nada daquilo que eu pensei? E se? E se?

Pois é.

E se?

 

Queria que soubesse que apesar de tudo, de todo esse tempo, não teve um só dia em que eu não tenha pensado em você. Com ódio. Com raiva. Com amor. Com saudade.

Saudade. Com aquele misto de sentimentos que sentimos por quem amamos. Saudade.

Às vezes chego a mentir para mim mesmo. Penso: Morreu. Acabou. Não. Cadê o túmulo? Eu quero ir lá visitar. Mas não existe nada disso.

O que existe é um vazio que nada nem ninguém aplaca.

Saudade.

Apesar de tudo.

Ainda Saudade.

Sim.



Escrito por Mateus Barbassa às 02h35
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BLUE VALENTINE (Texto 2)

“Quantas conversas, quantas risadas, quantas brincadeiras… E olha só, hoje nem nos falamos mais.”


Confesso que nunca aconteceu de escrever dois textos sobre um mesmo filme.

“Blue Valentine” será a exceção a essa regra.

É a terceira vez que assisto a esse filme do diretor Derek Cianfrance e confesso que o êxtase de assistir pela primeira vez só foi reforçado nas vezes seguintes.

O primeiro texto que escrevi sobre “Blue Valentine” foi em 31 de janeiro desse ano e não quis contar muita coisa, pois o filme ainda não tinha estreado no Brasil.

Quase seis meses depois, ele estreou nesse fim de semana. Sim. Marketing puro. Os produtores esperaram a data do Dia dos Namorados para colocar o filme em cartaz. Numa tentativa de bombar as bilheterias o filme está sendo vendido como uma verdadeira história de amor. Esqueça. Não é nada disso. O filme é uma poderosa análise das relações humanísticas. Sim. É um filme dolorido. Cruel. Forte.

Como disse na primeira vez que escrevi sobre ele, é um filme salomônico, espiral. Quando conhecemos Dean e Cindy, eles já estão casados. Já têm uma filha. Já estão meio infelizes. A primeira cena mostra uma garotinha procurando um cachorro. Logo ficamos sabendo que o cachorro sumiu. E mais tarde que o cachorro morreu. Sim. Maus presságios. A morte do cachorro significa que algo ruirá. Assim como nas clássicas tragédias gregas. É interessante notar a maneira especial com que o diretor trata as cenas que se passam na estrada. E isso eu só notei na segunda vez em que assisti. A estrada no filme é um lugar de perigo. De alerta. Mas também de aberturas de possibilidades. O filme começa e termina mostrando uma estrada. Sim. O que o diretor pretende com isso? Simples. A própria vida é essa estrada. Muitas outras cenas se passam ali. Em trânsito. Preste atenção. Nessa terceira vez que assisti o filme, lembrei de uma passagem de um poema do Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa):

“Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a ação humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.”

Creio ser uma perfeita definição para o uso recorrente desses personagens em trânsito.

Dean e Cindy são tipos diferentes. Ele, todo relaxadão. Ela, tensa, insegura. Suas histórias de vida só reforçam essa diferença. Ele foi abandonado pela mãe quando criança. Ela tem um pai tirano e uma mãe omissa. Sim. Freud explica. Esse aspecto psicanalítico está impresso no filme. De alguma maneira, Cindy busca em seus relacionamentos a reprodução tirânica de seu pai. Fato explícito numa cena em que ela “pede” para ser quase estuprada. Já Dean, sua sina é ser constantemente abandonado.

"- Sabe qual é o seu problema? Você não deixa as pessoas com gostinho de quero mais.
- Como assim?
- Você distribui doce todo dia. Isso enjoa!"

Essa frase do Caio Fernando Abreu é a mais pura definição de Dean. Sim. Ele é carente. Mas é também bom pai e ama desmedidamente Cindy. Mas acaba por sufocá-la. Afinal, ela não está acostumada a ser amada. E quantos de nós estamos? Essa pergunta martela minha cabeça. Assistir “Blue Valentine” é isso. É perceber certas coisas que gostaríamos de esquecer. Sim. Não é fácil assistir o fim de algo tão bonito. Não consigo aceitar que as coisas acabem dessa maneira. É tão triste. Mas somos assim. O ser humano é assim. Parece fadado ao erro. Triste constatação. “Blue Valentine” me lembra um outro filme que aparentemente não tem nada a ver com ele: “Onde vivem os monstros” do Spike Jonze. Também ali há o fim de algo sublime. Também ali dói. Também ali há a metáfora do caminho.

“Tudo é ilusão, tudo é só estrada que corre e corre, e todas as estradas vão para o mesmo lugar. Que as paisagens dessa estrada sejam belas, então.”

Sim. Novamente Ele: Caio Fernando Abreu. Sim.

“Blue Valentine” possui um roteiro simples, mas eficiente. O filme não se perde em explicações tolas, não tenta forçar uma resposta para o término do relacionamento de Dean e Cindy. E isso é um dos muitos aspectos positivos. Não é justamente assim na vida real? Quase nunca temos uma explicação palpável para o fim das coisas. Muito pelo contrário. Na maioria das vezes, só sobra a perplexidade de não se entender direito aquilo que se sente. Humano. Tão demasiado Humano.

“Uma pressa, uma urgência. E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça.”

Por que sempre fazemos isso? Do que temos tanto medo?

Creio que uma possível resposta esteja em nossa educação. Não. Não somos criados para o amor. E quando digo amor não é só esse existente entre os apaixonados. Mas todo e qualquer sentimento bom que nutrimos pelos outros, seja família, amigos, etc.

Não é a nossa. O amor em nossa sociedade é uma obrigação. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” “Amai Deus sobre todas as coisas”. E assim caminhamos nessa estrada, que não é nem feliz, nem infeliz. É morna apenas. É incompleta apenas. Lacan dizia que a gente sofre, porque não tem para onde voltar. Concordo com ele. Não sabemos nada de nada. Somos uns perdidos. Uns entregues a própria sorte. E cada um que faça o seu. O amor em nossa sociedade se transformou numa mercadoria. Brecht estava certo.Como posso ser boa se tenho que pagar o aluguel?” Eis ai a grande contradição de nossos tempos.

Aliás, falando em Brecht, é dele uma das melhores definições sobre o amor:

“O amor é a arte de criar algo com a ajuda da capacidade do outro.”

E é exatamente esse o ponto que pega em “Blue Valentine”. Cindy não suporta ser ajudada. Já Dean é legal com todo o mundo. Cindy é inverno. Dean é verão. Juntos produzem grandes tempestades. No começo é aquela chuva redentora, que molha a terra e faz brotar os alimentos. No final é aquela chuva que só provoca o caos.

“Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.”

No começo do namoro de Dean e Cindy essa frase de Caio Fernando Abreu é real. Eles são lindos juntos. Eles se divertem. Parecem até mesmo se completar. Mas com o passar do tempo, algo desanda. O quê então? Para mim, creio ser um misto de coisas. Resquícios de infância, imaturidade dos personagens, egoísmo, o modo capitalista como a sociedade se organiza. O mundo de Cindy e Dean acaba de ruir quando ela está comprando bebidas num supermercado e reencontra o namorado da adolescência. Sim. Cindy inevitavelmente faz a comparação entre Bob e Dean. E nessa comparação o marido sai perdendo. Bob é lindo, bem sucedido e lhe passa uma cantada. Dean é a imagem do “loser”. A visão de Bob a perturba. Ela vê que fez uma “escolha errada”. Ela deveria ter escolhido Bob. Ele sim era o marido ideal para ela. Fato este que corrobora para a tese de Dean:

“Eu acho que os homens são mais românticos do que as mulheres. Quando nos casamos é com uma garota. Nós resistimos o tempo todo até conhecermos uma garota e pensamos: eu seria idiota se não casasse com ela. Mas as garotas só escolhem a melhor opção. Esperam sempre pelo príncipe encantado, e então casam com o cara que tem um bom emprego.”

Essa cena do encontro entre Cindy e o ex-namorado deflagra o fim do relacionamento dela com o marido. “Por que você não faz nada da vida?” pergunta ela. De certa forma os conselhos de sua avó de “Faça com que a pessoa por quem você se apaixone valha a pena pra você” é confrontado. “Como confiar em seus sentimentos quando eles desaparecem?”, essa é a dúvida de Cindy.

Sim. Esse é oponto.

O diretor Derek Cianfrance escreveu esse roteiro para tentar responder essa pergunta. Seus pais se separaram quando ele tinha 21 anos de idade e o roteiro de “Blue Valentine” é uma tentativa de compreender o que levou seus pais a se separarem. Outro fato interessante de “Blue Valentine” é que o diretor não deixou que Ryan Gosling e Michelle Williams se conhecessem antes das filmagens. Não. Os dois atores só se conheceram já no set. As gravações começaram pelo início do namoro. Gravada essa parte do filme, Derek confinou Michelle, Ryan e a atriz que interpreta a filha deles numa casa real durante um mês. Feito esse laboratório das vivências de um casal, o diretor filmou a separação. Creio que esses detalhes dão a riqueza emocional desse filme. Tudo isso fica impresso em seu resultado final. Michelle Williams e Ryan Gosling demonstram uma incrível maturidade artística nesse filme. O frescor da juventude, da paixão e o lento processo de desintegração disso tudo é vivenciado pelos dois com extrema coragem e talento. O que assistimos não é um filme, mas um desabrochar de intimidades. O trabalho desses dois é de cair o queixo, de aplaudir de pé, de gritar “bravo” no final. O diretor Derek Cianfrance consegue em seu primeiro trabalho construir o clima certeiro em todas as cenas. É impressionante. Nada falta. Nada sobra. A direção dos atores e o tratamento das imagens é o ponto alto desse jovem diretor. A iluminação e a trilha sonora do grupo Grizzly Bear é linda e inspirada. Outras duas músicas também ganham destaque no filme, uma delas inclusive é cantada pelo próprio ator Ryan Gosling, já a outra de nome “You and Me” (cantada pelo grupo “Penny & The Quartets”) é usada como tema do casal. Aliás, essa canção é utilizada duas vezes no filme e impressiona a sensibilidade do diretor no tratamento dado a cada uma delas. É genial e dolorido. Demais.


Enfim, “Blue Valentine” é um daqueles raros filmes que tratam de relacionamentos de maneira adulta, sem os maneirismos do gênero. Como disse no meu primeiro texto, “Blue Valentine” não é um filme. É um soco em plena boca do estômago. “Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom.” Sim, Clarice Lispector estava certa: “a vida é um soco no estômago.” Sim.



Escrito por Mateus Barbassa às 13h47
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Um amor tão frágil ou As fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela

“...limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela. Ela, que deveria ter ficado no sertão de Alagoas com vestido de chita e sem nenhuma datilografia...”


Sim. É Clarice Lispector. Mas se encaixa perfeitamente para o filme “Um Amor tão Frágil” do diretor suíço Claude Goretta.

Nesse filme cujo título original é “La dentellière”, o que assistimos é a fraca aventura de uma moça numa cidade toda feita contra ela. A protagonista do filme é Béatrice, garota do interior que se muda com sua mãe para Paris. Ela trabalha num salão de beleza. Mora numa casa humilde com a mãe. Não tem grandes ambições na vida. Seu maior sonho é se tornar cabeleireira. Tem uma amiga só, que é o exato oposto dela: extravagante e escolada nas coisas do amor. Béatrice tem 18 anos e é virgem. Num primeiro momento, o filme centra-se na história da amiga de Béatrice: Marylène, espécie de Tirésias Moderno, ela é a responsável pela iniciação de Béatrice nas coisas do amor. Suas relações amorosas sempre terminam da pior maneira possível. Ela é uma eterna iludida. Acredita. Acredita. Acredita. E um dia se dá mal. Quando conhecemos essas duas personagens, o amor mais uma vez acaba de fechar suas portas. O amante de Marylène termina a relação com ela por telefone. Ela chora. Desespera-se. Tenta o suicídio. Mas acaba tirando férias e viajando para um balneário da Normandia e leva consigo sua amiga fiel. Lá, as duas passeiam, tentam se divertir. Marylène logo se envolve com um outro homem, deixando a amiga sozinha. Sim. Béatrice conhece o amor. Um belo dia, enquanto se delicia com um sorvete de chocolate, um estudante de letras corteja-a. Eles começam a sair. Apaixonam-se. Mas e o vaticínio de Marylène?

“O amor não dura. Primeiro bebem do mesmo copo e depois um tampa os ouvidos para não ouvir os roncos do outro. A paixão, o amor é tudo uma farsa. E tudo isso para transar um pouco. Não acham?”

Sim. Marylène é uma espécie de mal-estar, aquele pensamento que martela em nossas cabeças toda vez que nos apaixonamos: hei não se entregue assim... hei você pode se machucar ao entregar sua vida nas mãos de outrem... Não. Na maioria das vezes não damos a mínima bola para esse alerta. Daí que Béatrice terá que ela mesma tentar construir sua história. Terá habilidade para tanto? Ela que se conhece apenas de ir vivendo à toa, que nunca se questionou “quem sou eu?” ou “quais são meus desejos?”... É como escreveu Lispector em “A Hora da Estrela”:

“É que "quem sou eu?" provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.”

Sim. François é o exato oposto disso. Estudante da Sorbonne questiona Béatrice a todo o momento se ela não almeja mais nada da vida. Ela não sabe, pois não tem muito o costume de pensar em si mesma. A única vez que ela questiona François, a coisa desanda. “O que é dialética?” pergunta Béatrice. “O que é cultura?” pergunta Macabéa. Nessa simples pergunta, os dois mundos do jovem casal entram em cheque. Ela então percebe que aquilo que os separa não é só o dinheiro. É além.

Béatrice é vivida pela grande atriz (talvez a maior de sua geração) Isabelle Huppert, que neste filme tinha apenas 23 anos. É impressionante notar o trabalho estupendo realizado por ela nesse filme. Atriz extremamente minimalista, Isabelle Huppert nos brinda com uma Béatrice extremamente real. Seus gestos pequenos, sua quase mudez e seus olhos expressivamente “mortos” dão a exata medida da vivência interior da personagem.

Sim. Béatrice assim como Macabéa é daquelas mulheres que “não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?”.

Tanto Lispector quanto Goretta parecem responder que não.

O filme “Um amor tão frágil” apesar de ser extremamente sutil e belo, é também “um soco em plena boca do estômago”.

O diretor Claude Goretta constrói seu enredo de maneira lenta e gradual, permitindo assim que seus personagens possam se apoderar do tempo e espaço em que habitam. Nada aqui é apressado ou abrupto. As coisas acontecem porque tem que acontecer. MAKTUB. Sim. Estava escrito. “No fundo ela não passara de uma caixinha de música meio desafinada.” Sim Clarice. Sim Goretta. O epílogo de “Um amor tão frágil” mostra a personagem de Isabelle Huppert encarando o espectador. Essa cena me remeteu imediatamente ao final de “Noites de Cabíria” de Federico Fellini. Sim. Não. Não há banda. Não há orquestra na floresta. Não há um quase sorriso entre lágrimas. Não. Há apenas o olhar de uma menina que muito cedo deixou de existir. Se é que algum dia existiu de fato...

“Ele passaria ao lado dela, bem ao lado dela, sem vê-la. Porque ela era dessas almas que não dão sinal algum, mas que devem ser questionadas pacientemente e sobre as quais há de se saber enxergar. Um pinto teria feito dela motivo de uma tela. Ela poderia ter sido lavadeira, carregadora de água ou uma rendeira.”




Escrito por Mateus Barbassa às 11h03
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Reconstrução de um amor ou O Eterno Retorno

A primeira cena do filme “Reconstruction’ (no Brasil traduzido como “Reconstrução de um amor") mostra um homem sob uma luz “teatral”. Ele fuma. De repente, ele faz uma mágica. O cigarro começa a flutuar. Uma voz off anuncia:

“É sempre assim que termina. Um pouco de magia, um pouco de fumaça. Algo flutuando. Mas não funciona sem um empurrão necessário. Um pouco de risadas, um homem e uma mulher bonita. E amor.  Vamos recomeçar. No começo, um homem sozinho. Não, ele não está sozinho. Ainda. Esse é o primeiro passo. O homem. Logo vêm as risadas. A mulher. O amor. Olhe para ele. Podemos começar assim, embora não seja assim que começa.  Por isso, fique atento. É importante, acredite. “


Sim. É importante ficar atento. O filme é todo cheio de digressões temporais. Mais sugere do que mostra. Em suma, cinema sensorial. Ou toca. Ou não toca.

Eu gostei. E muito. O filme não é sobre o amor. Não. E talvez isso faça toda a diferença.

É sobre o cinema. Sobre como construir uma história. Como contar essa história. Que sim pode ser uma história de amor. Também.

O filme nos mostra o começo e o fim dessa história, de maneira “bagunçada”, estilizada e extremamente engenhosa. Um homem encontra uma mulher num bar enfumaçado e se apaixona por ela. Clichê, não? Esqueça. Em “Reconstruction”, essa história é esgarçada, esticada ao máximo. Utilizando-se de cenas aparentemente repetitivas, o diretor dinamarquês Christoffer Boe reflete sobre o sentido das vivências que se “repetem”. Algo muito próximo ao defendido pelo filósofo Friedrich Nietzsche. Sim. O Eterno Retorno. Nessa teoria tudo absolutamente tudo vai e retorna sempre.

Conceitos como criação e destruição, amor e ódio, alegria e tristeza, saúde e doença, bem e mal, belo e feio são apenas faces de um mesmo jogo “perpétuo”. A realidade não faz sentido.

E é exatamente por isso que o alerta do narrador do filme faz muito “sentido”:

“Sei que não devia mencionar, mas o faço mesmo assim:

Lembre-se: tudo é apenas um filme. Uma construção. Mas de todo modo, dói.”

Sim. Essa é a função da arte. Existir como meio de transubstanciar a vida. É ficção escancarada. Mas mesmo assim sugere a vida. O jogo entre o filme e o espectador é aberto. E sobretudo permiti ao espectador o livre pensar. O enredo contêm “furos”. O espectador terá que preencher essas lacunas. A memória afetiva do espectador é ativada pelas cenas em tom quase sempre sublime. É um filme extremamente contemporâneo. A história contada por ele não é o mais importante. E sim o como contar essa história. Que elementos usar. A cena será lenta ou acelerada? Em preto e branco ou colorida? Terá música ou será muda? É desse jogo escancarado que brota a maior qualidade desse filme. E também seu maior calcanhar de Aquiles. Pois o espectador médio não está acostumado com esse tipo de narrativa. Estamos chafurdados num aristotelismo primitivo. Sim. Ainda no século XXI as histórias precisam fazer “sentido”. Precisam de um começo, um meio e um fim pré-determinados. Daí que “Reconstuction” não nos oferece nada disso. É cinema cabeça. Sim. Se você não gosta desse tipo de cinema então, fuja como o diabo da cruz desse filme. Agora se você curte, te garanto que serás recompensado com um filme poderoso. Uma bela reflexão sobre o homem. Sobre o cinema. Sobre o Amor.



Escrito por Mateus Barbassa às 01h55
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PLC 122 ... ou Afastai-vos de mim, pois não vos conheço

Ontem (01/06/2011) evangélicos e católicos foram até Brasília protestar contra um projeto de lei que torna crime o preconceito contra homossexuais.


Fiquei muito assustado ao tomar conhecimento desse protesto. O motivo: essas pessoas se consideram cristãs. Serão mesmo? Acho impossível. Jesus Cristo (líder máximo do Cristianismo) numa passagem muito peculiar do Novo Testamento deixa claro qual deve ser a conduta de seus seguidores:

“Mas Jesus foi para o Monte das Oliveiras.

Pela manhã cedo voltou ao templo, e todo o povo vinha ter com ele; e Jesus, sentando-se o ensinava.

Então os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; e pondo-a no meio,

disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério.

Ora, Moisés nos ordena na lei que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?

Isto diziam eles, tentando-o, para terem de que o acusar. Jesus, porém, inclinando-se, começou a escrever no chão com o dedo.

Mas, como insistissem em perguntar-lhe, ergueu-se e disse- lhes: Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra.

E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra.

Quando ouviram isto foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, até os últimos; ficou só Jesus, e a mulher ali em pé.”

Então volto a perguntar: Esses cristãos que foram lá em Brasília protestar contra o direito de não mais ter pedras atiradas em cima de si o tempo todo já leram realmente a Biblia ou acreditam piamente em tudo o que Pastor lhe diz?

Não são cristãos. Não são nada. Ou melhor são um arremedo de humano. Morrem de medo de realizar seus desejos, suas fantasias. Não vivem a própria vida. Mas negam-na. Na esperança vã e ensandecida de conquistar um terreno no céu à direita de Deus Pai Todo Poderoso. Fala sério! Não sei se rio ou se choro. Falo por experiência própria. Fui evangélico durante quatro longos anos. Anulei minha adolescência numa baboseira pra boi dormir. Vi minha irmã enlouquecer de tanto freqüentar esse tipo de Igreja. Vi meu pai e minha mãe entregando dinheiro nas mãos desses verdadeiros lobos em peles de cordeiros. Vi tudo o que havia de sublime em mim se transformando num misto de medo, renuncia e intolerância. Quando finalmente decidi não mais freqüentar esses cultos senti-me milagrosamente EU. Reconquistei minha liberdade. Meu livre-arbítrio. Isso não tem preço. Conheço muito bem a maledicência desse tipo de gente. A inveja. A contenda. O jogar pedra no telhado dos outros. Sem dar bola para o próprio telhado de vidro. Conduta lamentável. É claro que estou generalizando. Encontrei ali também pessoas que em suas vidas vivenciavam os ensinamentos de Cristo. Poucas. Bem poucas. E geralmente não eram muito valorizadas dentro do próprio regimento religioso. Numa sociedade cada vez mais espetacularizada também a religião tem que andar na moda. Falando em “Sociedade do Espetáculo”, o francês Guy Debord em seu livro homônimo escreve lá pelas tantas:

“O movimento de banalização que, sob as diversões cambiantes do espetáculo, domina mundialmente a sociedade moderna, domina-a também em cada um dos pontos onde o consumo desenvolvido das mercadorias multiplicou na aparência os papéis a desempenhar e os objetos a escolher. As sobrevivência da religião e da família — que permanece a forma principal da herança do poder de classe —, e, portanto, da repressão moral que elas asseguram, podem combinar-se como uma mesma e única coisa, com a afirmação redundante do gozo deste mundo, este mundo não sendo justamente produzido senão como pseudogozo que traz consigo a repressão. A aceitação beata daquilo que existe pode juntar-se como uma mesma e única coisa à revolta puramente espetacular: pelo simples fato de que a própria insatisfação se tornou uma mercadoria desde que a abundância econômica se achou capaz de estender sua produção tratando de tal matéria-prima.”

É isso. Exatamente isso. Entenderam?

Qual a desculpa dessa gentalha que vai lá protestar em Brasília?

Resposta: F-A-M-Í-L-I-A!

Relação Homossexual não gera vida. Portanto, não é coisa de Deus. Mas se esquecem de olhar para o próprio rabo, visto que relação heterossexual que não é praticada por puro e simples desejo de procriar também não gera vida e, portanto também não é Deus. Sim. Meus irmãos, esqueça o sexo como prazer. Se você se considera cristão e faz sexo sem ser para ter filhos você é um pecador. BEM VINDO AO CLUBE!

Ouço pessoas lúcidas dizendo que a Igreja tem que mudar seu pensamento, se modernizar, que isso que aquilo, que a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana precisa aprovar o uso de camisinha, visto que inúmeras pessoas estão morrendo de aids no mundo todo e blá blá blá blá blá. Não é a Igreja que tem mudar. NÃO. São os fieis. Se você não concorda com os dogmas da Igreja e continua se dizendo católico (ou evangélico) o problema não está na Igreja, mas em você. Assuma sua hipocrisia. Assuma seu medo. Saia do armário religioso. Deus não tem nada a ver com isso. Jesus Cristo muito menos. “Eu não vim trazer a paz, mas a espada”. “Porque não és nem frio nem quente, porque és morno, eu te vomitarei da minha boca”. Percebeu? Percebeu o processo de inversão que esses religiosos fazem? Eles transformam tudo a seu bel prazer. Pegam o exemplo revolucionário (dentro do contexto em que viveu) de Jesus Cristo e o transformar num pastiche.

O fato é o seguinte, meu irmão: Escola, Igreja, Família, Mídia (e muitas coisitas mais) existem para te deixar cativo. Pra te transformar num ser passivo, sem vontade própria. Numa marionete das vontades dessas instituições. Num joguete do destino. Abra os olhos. Duvide. Duvide de tudo e todos. Os falsos profetas e falsos justiceiros estão por ai... Sanguessugas. Parasitas. Vivem num antigo testamente eterno. Onde a lei do talião é a ordem. Vivem num obscurantismo inalterável/constante/enorme/desmedido.

Encerro meu “post” com dois textos aparentemente contraditórios. Um bíblico. O outro do enfant terrible Antonin Artaud. Propositalmente não darei os créditos, pois creio que você que me lê é suficientemente inteligente para faze-lo:

“O confessionário não é você, oh Papa, somos nós; entenda-nos e que os católicos nos entendam.
Em nome da Pátria, em nome da Família, você promove a venda das almas, a livre trituração dos corpos.
Temos, entre nós e nossas almas, suficientes caminhos para percorrer, suficientes distâncias para que neles se interponham os teus sacerdotes vacilantes e esse amontoado de doutrinas afoitas das quais se nutrem todos os castrados do liberalismo mundial.
Teu Deus católico e cristão que, como todos os demais deuses, concebeu todo o mal:
1º. Você o enfiou no bolso.
2º. Nada temos a fazer com teus cânones, índex, pecado, confessionário, padralhada, nós pensamos em outra guerra, guerra contra você, Papa, cachorro.
Aqui o espírito se confessa para o espírito.
De ponta a ponta do teu carnaval romano, o que triunfa é o ódio sobre as verdades imediatas da alma, sobre estas chamas que chegam a consumir o espírito. Não existem Deus, Bíblia. Evangelho; não existem palavras que possam deter o espírito.
Nós não estamos no mundo, oh Papa confinado no mundo; nem a terra nem Deus falam de você.
O mundo é o abismo da alma. Papa caquético. Papa alheio à alma, deixe-nos nadar em nossos corpos, deixe nossas almas em nossas almas, não precisamos do teu facão de claridades.”

“Nem todo que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi abertamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade! Portanto todo aquele que ouve estas minhas palavras e as pratica, será semelhante ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. Desceu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa; contudo, ela não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. Aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, será comparado ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. Desceu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos, e deram contra aquela casa, e ela caiu, e foi grande a sua queda.”



Escrito por Mateus Barbassa às 04h29
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Carta Aberta a Feira do Livro de Ribeirão Preto

 

Hoje me apresentei na 11° Feira Nacional do Livro com uma leitura dos poemas do grego Konstantinos Kaváfis. Eu e a atriz Maria Angélica Braga. A primeira apresentação seria às 10 horas da manhã. Chegamos lá às 9 e encontramos a Tenda Grega lotada de adolescentes sem ninguém responsável pela organização da Feira por perto. Sentamos e esperamos durante 1 hora. Ninguém da organização apareceu. 10 horas em ponto chega um funcionário da Feira e pergunta se nós éramos os atores da apresentação. Respondemos que sim. Ele então nos perguntou o que aconteceria ali, pois alguém o mandou ir pra lá. Aquela pessoa que deveria saber toda a programação e informar ao público nada sabia. Mais e mais adolescentes foram chegando. Os microfones solicitados por mim não estavam lá.  A apresentação se tornaria impossível. Deixe claro que só apresentaria se os microfones aparecessem. De repente, não mais do que repente, quatro ou cinco funcionários da Feira apareceram. Quando um amigo meu revoltado pela demora da apresentação foi perguntar aos funcionários os porquês do atraso, eles responderam que era porque o artista estava dando “piti”. Ora, conheço essa desculpinha. Bastante usada pelos donos do poder. Não fazem o seu serviço direito e transferem a culpa para o artista que apenas quer fazer o seu trabalho de maneira digna. Dar “piti” agora é exigir que o contrato seja cumprido?

Ao saber da resposta dos funcionários da Feira, eu e a Maria Angélica decidimos abrir a questão para o público presente e fazer a apresentação sem microfones com o público bem próximo a nós. Sentamos e começamos a ler os poemas de Kaváfis. Sim. Fizemos a nossa parte. Mas fico chocado com a desinformação e o relaxo com que a questão cultural é tratada em nossa cidade. Sim. É impossível negar os esforços dessa administração e em especial os esforços da secretária da cultura, representados pela Adriana Silva. Sim. Esse pessoal rala pra caramba e tenta fazer a coisa acontecer da melhor maneira possível. Mas não podemos fechar os olhos para uma outra questão: os eventos culturais em Ribeirão Preto são muito mal executados. E eu não sei de quem é a culpa. A Feira do Livro que deveria ser uma celebração cultural virou um point de encontro de “manos”. E quando digo “manos” não estou querendo dizer meninos de periferia. Não. Digo “manos” como estilo de vida. O Capitalismo e a sociedade de consumo transformaram os desejos dos jovens em um só. Eles comem, vestem-se, pensam igual. Ricos, pobres, classe média. Magros, altos, gordos. Brancos, negros e etc. O problema, no entanto, é mais profundo. Esses adolescentes que freqüentam a Feira do Livro vagando como verdadeiros zumbis, sem desejos próprios, apenas reproduzindo um comportamento errático são as verdadeiras vítimas.

Vítimas de um país que não valoriza a educação. Um país onde professores ganham mal pra caramba e têm que fazer jornada dupla, tripla, para poderem sobreviver. Vítimas de um país controlado por um mídia fascista que enfiam goela abaixo um padrão americanóide, idiotizado. Onde o sexo e o consumo de cigarros e bebidas alcoólicas (quando não drogas mais fortes) são as únicas maneiras de se encontrarem consigo mesmo. Não consigo sentir raiva desses adolescentes que freqüentam a Feira do Livro e que badernam e afugentam o público alvo. Não. Sinto pena. Sim. São usados. Manipulados. São só o resultado de anos de atraso educacional. Do descaso do governo. Da degradação familiar. Da sociedade de consumo. Com seus celulares potentes ouvindo funk proibidão no último volume tentam chamar a atenção para si mesmos. Atenção essa que não recebem na escola, na família, nem do governo. Então como conseguir essa suprir essa carência?

A Feira do Livro chegou em sua 11° edição em um ponto crítico. Ou para e faz uma reavaliação de seus conceitos ou está fadada ao fracasso. Os livreiros estão com medo dos “manos”. O público consumidor está deixando de freqüenta-la com medo de assalto ou coisas piores. Ontem no show do Ney Matogrosso, meninas tinham seus cabelos puxados, suas bundas assediadas e coisas do gênero. O consumo de drogas rolou solto. E o desrespeito ao artista foi absurdo. Será que esses jovens sabem o que Ney Matogrosso representa para a identidade cultural do Brasil?

Lógico que não.

Ninguém nunca lhes falou nada.

Na escola eles só aprendem a copiar/colar. Geração Control C/Control V.

Os pais atolados em horários de trabalho cada vez mais desumanos não encontram tempo para nada, a não ser tentar colocar um prato de comida na mesa do almoço/jantar.

Ao ligarem a tv aberta só entram em contato com mulheres-frutas e jogadores de futebol desarticulados, que ganham milhões, mas falam “nóis vai, nós foi”....

E assim caminha a humanidade...

Pois é, como exigir um comportamento adequado desse jovens?

Sem contato com cultura, livros, poesias, durante o ano todo, de repente, se veem jogados num lugar que não é deles, não é feito para eles. E ai?

E ai dá nisso?

Mas então o que fazer?

Cobrar ingressos e limitar a entrada?

Espalhar placas “PROIBIDO A ENTRADA DE MANOS”?

Tentar colocar esse jovens em contato com cultura o ano todo?

Sinceramente não sei.

Mas o que sei é que o Sesc Ribeirão tem um projeto muito legal e que acabei de participar.

O projeto consiste em levar apresentações de leituras dramáticas para dentro da sala de aula. Confesso que quando fiquei sabendo disso, fiquei com medo. Mas ao adentrar as salas de aula o que vi foi o inesperado. Alunos disciplinados e ávidos por aprendizado.

Pensei cá com meus botões: Será que sonhei e estou na Dinamarca? Não. Não era Dinamarca. Era uma escola pública brasileira. Perguntei a direção como tinham conseguido tal feito. Resposta: Tentando. Trazendo. Mostrando. Na primeira vez, eles fizeram bagunça. Na segunda, menos. Até que um dia aprenderam.

Gosto e admiro a Feira do Livro de Ribeirão Preto.

Acho um evento ótimo. Uma oportunidade rara de cultura para a cidade.

Mas os representantes da Feira terão que tomar uma decisão muito difícil na próxima vez. Terão que escolher se querem ser o maior evento literário do país ou se querem ser o melhor evento literário do país. Creio que são coisas bem díspares. Um dos últimos poemas "A Cidade" do poeta Konstantinos Kaváfis declamando por mim e pela Maria Angélica talvez ajudem a elucidar um pouco essa questão:

A cidade

Tu dizias: “Irei para outras terras, outros mares

em busca de cidade melhor do que esta.

Aqui, todos os meus esforços são natimortos.

Meu coração – amortalhado – aqui se enterrou.

Por quanto tempo minha alma permanecerá no abandono?

Para onde meus olhos se voltem, até onde a vista alcança,

vejo os negros escombros de minha vida,

que vivi, estraguei, destruí aqui”.

Não encontrarás outras terras nem outros mares.

A cidade te seguirá. E nas mesmas ruas sem fim

errarás, nos mesmos bairros te perderás,

e nas mesmas moradas teus cabelos embranquecerão.

Onde quer que vás reencontrarás esta cidade.

Para ti nenhum barco, nenhum caminho alhures te levará.

estragastes a vida em toda parte, pelo mundo inteiro,

e mesmo aqui, nesta mínima pátria.



Escrito por Mateus Barbassa às 21h56
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SEXUALIDADEzinha ou apenas mais um fluxo de consciência

Venho observando que atualmente as pessoas se definem pela sexualidade, como se aquilo que elas fazem em sua intimidade fossem sua bandeira, seu norte, aquilo que ela são em primeiro plano.

Ora, sinceramente eu acho isso tudo uma grande balela. E acho que esse frenesi em sair do armário é ridículo. O que eu faço em minha intimidade me define como individuo?

Lógico que sim. Mas isso é apenas uma das muitas facetas de uma pessoa.

Tenho observado que a necessidade de esfregar a própria sexualidade na cara das pessoas é um mecanismo de insegurança. Há quem interessa saber sobre nossas sexualidades? Ser gay, hétero ou bi faz de você uma pessoa diferente?

Creio que não.

Em geral, as pessoas estão completamente carentes e inseguras. Os consultórios dos psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, terapeutas estão cada dia mais lotados. A venda de medicamentos tarja preta está batendo recordes. E os humanos cada vez mais infelizes.

Por que isso?

Porque, em geral, as pessoas não aceitam o vazio da própria existência.

Nascemos, vivemos e morremos.

Isso é tudo.

Não sabemos de onde viemos e muito menos para onde vamos.

Existe uma porrada de gente tentando explicar o inexplicável: a vida não faz nenhum sentido, meus amigos. Nenhum. Sim.

Isso faz dela menos bonita?

Não. Lógico que não.

Uma coisa é fato: quando mais você sabe, mais sofre.

A ignorância é um paraíso.

A dúvida é o que move o mundo.

Estamos na beira de um trapézio. Prestes a pular. Não sabemos nem se lá embaixo terá uma rede de proteção.

Ai, então, é com você, meu amigo. Escolha, ou ficar lá em cima parado, morrendo de medo, cheio de vontade de pular, mas esperando ter a certeza que lá embaixo terá algo para te segurar ou se lançar de cabeça no imenso buraco negro que é viver.

Não esquecer que se você não pular nunca vai saber qual é a sensação... e numa dessas você pode até voar... voar para longe de tudo e todos... acima do bem e do mal, além, lá onde o infinito de tão infinito nem mais nome tem... Sim. Você pode se estabacar lá embaixo. Se machucar. Ralar o joelho e também o coração. Mas isso tudo você só vai saber se pular. E se a queda for feia, sempre vai ter alguém para te estender a mão. E você vai levantar. E se for forte, ainda vai dar um quase sorriso. Sim. Sorrir entre lágrimas é uma das melhores sensações do planeta. Já experimentou?

Você pode estar se perguntando, mas o que tudo isso tem a ver com o começo do texto.

Mas por incrível que pareça tem sim.

Hoje em dia parece que as pessoas só serão felizes se elas se descobrirem sexualmente. Se você não tiver uma placa no pescoço com sua identificação sexual, você está fora de moda. OUT. Que isso gente? Quem foi que disse essa baboseira? Sexo não traz felicidade. Nunca trouxe. Sexo é uma descoberta. É mistério. Deve ser exercido como um processo. Não como um fim. Sim. Se conheça primeiro. Quais são os seus desejos? Não só os sexuais. Mas os de vida. Que livros você lê? Qual foi a última peça de teatro que você viu? E cinema você freqüenta? Quando foi a última vez que você deu risadas até doer a barriga? Quando foi seu último orgasmo? Sim. O Orgasmo sincero. Esqueça o fingido para enganar o cônjuge. Falo daquele que te faz tremer as pernas, que acelera o coração, que a boca fica seca e você tem vontade de urrar de tanto prazer. Já experimentou?

Sabe, sinceramente estou cansado de gente sem papo. Vazias. Meros Corpos. Zumbis. Natimortos. Conhece aquele tipinho que não tem nada na cabeça? Sabe aquele? Geralmente o mais bonitinho(a) da “tchurma”? Aquele que acredita que seu lindo corpinho é o suficiente? Pois é. Não é. Não. Não é suficiente. Quantas horas do seu dia você passa fazendo sexo? Já se fez essa pergunta? O que segura uma relação (seja ela qual for) é outra coisa, bem diferente. É o papo. A afinidade. Ou os atritos. Sim. Tudo aquilo que move. Que nos lança para frente. Para o futuro. Eu tenho ânsia de futuro. Mas sei viver o presente. E quase nunca me esqueço do passado. Porque é ele quem me faz ser quem eu sou hoje. Entendeu?

Então me pergunto: Por que será que as pessoas precisam tanto se definir pela sua sexualidade tão somente? Elas são só isso mesmo? Só? Mais nada? Nadinha?

Meninas com shorts curto, enfiado no cu, com peitos siliconados e palavreado chulo.

Meninos com seus braços musculosos (de bomba?) com suas camisetas regatas e tatuagens orientais coçando o saco.

A bichinha poc-poc e sua voz anasalada, afetado até o último fio de cabelo descolorido.

A sapatão caminhoneira, mais macha que muito homem. “É cilada Bino!”.

O que é isso?

Ou melhor, pra que tudo isso?

Às vezes chego a pensar que sou moralista. Justo eu. Sim.

Não consigo acreditar que esses verdadeiros rótulos ambulantes sejam humanos. Não. Por trás da máscara social, deve existir algo mais urgente, mais latente. Escondido. Não é possível! Onde está o terreno? Aquele lugar que é onde sedimentamos nossas casas! Onde está? Sim. Cadê ele?

Sem auto-conhecimento estamos FUDIDOS!

É preciso duvidar. Questionar. BALBURDIAR. Sim. Meus amigos. É preciso não dizer amém a tudo. Não. Não acredite em tudo que tentam lhe enfiar goela abaixo. Não seja um arremedo de si mesmo. Não faça de sua sexualidade uma bandeira. Isso não é legal. Tente ser mais que isso. Hoje fiquei sabendo da história do pastor que violentou duas garotas menores de idade com a desculpa de estar tirando a pombagira do corpo das duas. Falando seriamente o estupro em si não me assustou tanto. O que verdadeiramente me assustou é a ignorância. Fico pensando: o quão ignorantes essas duas meninas eram para acreditar nas palavras desse homem? Ou então o quão imbecis as pessoas são para acreditar nesse papinho do tal do Barack Obama de “ainda somos os melhores do mundo”. Tem horas que tenho uns instintos terroristas. Só não vou dizer que entendo Osama Bin Laden, porque senão os chucros de plantão não vão entender que é uma brincadeira e vão me expulsar de Cannes. AI QUE LARS VON TRIER!

Sim. Meus amigos, o grande Nelson Rodrigues tinha razão.

Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: – ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.”

 

MEDO!



Escrito por Mateus Barbassa às 03h17
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Rosetta

“Rosetta” dos irmãos Dardenne é um filme excelente. Provocativo. Atual. Austero. Que exprime a dor de existir.

Contando a história de uma garota que sonha em encontrar um emprego de verdade, o filme mostra uma realidade desconfortável, que é expressa tanto pela história da menina, quanto pela forma com que os Dardenne filmam.

A câmera quase sempre na mão, inquieta, perscruta os personagens. É um cinema encarnado. Minimalista. Seco. Cru. Cruel.

Os diretores do filme não perdem tempo contando uma historinha para boi dormir. Não. É cinema em sua mais alta acepção. Os personagens não são explicados. Eles agem. Conhecemos quem eles são, através daquilo que é mostrado pela câmera invasiva e hostil da direção.

Essa prática remete ao “Gestus Social”, termo trabalhado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht, em que a leitura dos personagens se daria muito mais pelas dimensões físicas do que psicológicas. O modo como os personagens agem, se vestem, comem, pensam, falam, calam... tudo isso é gesto em Brecht. Sim. E é assim também em “Rosetta”. A crítica social surge no filme não como uma bandeira a ser levantada, mas como algo a ser notado, algo que existe e tem que deixar de existir. Sim. O filme não termina quando acaba. O incômodo provocado pelo que é mostrado não deve abandonar o espectador. Deve ficar com ele. Como algo que deve ser mudado em sua própria realidade. Quantas Rosetta’s existem por ai? Quantas conhecemos? O que nós fazemos por ela?

O cineasta português Pedro Costa certa vez escreveu:

“Para mim, a função primeira do cinema é nos fazer perceber que alguma coisa não está justa. Não há aqui distinção entre ficção e documentário. O cinema, no primeiro momento em que foi visto e filmado, buscou mostrar algo que não era justo. O primeiro

filme mostrava uma fábrica, as pessoas que deixavam a fábrica. Era semelhante a uma fotografia, que é também algo muito próximo do nosso mundo. É como tirarmos uma fotografia como prova de algo que vimos, alguma coisa que não está em nosso pensamento, mas à nossa frente, algo da realidade.”

 

O cinema dos Dardenne é isso. Sim. Alguma coisa não está justa. Rosetta sabe disso. Sua vida é miserável. Sua mãe é bêbada e promíscua. Seu pai nem é citado. Ela mora num trailer. Sua água é constantemente cortada. Ela é sempre demitida dos empregos. Mas não esmorece. Sai sempre em busca dos seus objetivos. Tenta internar a mãe numa clinica de recuperação. Tenta se estabilizar no novo emprego. Tenta. Tenta. Tenta. Mas não consegue. Está fadada ao fracasso. Coitada! Não! O diretor em nenhum momento tenta nos fazer sentir piedade dela. A frieza e realismo emanado pelo filme impedem a comiseração. Sobra a indignação. A revolta. Sim. Rosetta é revoltada. Ela e nós sabemos que o mundo não é humano. Algo deu errado. Alguma coisa não está justa.Revolto-me, logo existo”, escreveu Albert Camus. Sim. É preciso se revoltar contra essa existência vazia de significado. É preciso se revoltar frente a uma vida mecanizada. De certa forma, “A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforo” do diretor finlandês Aki Kaurismäki  (um dos últimos filmes que vi e comentei aqui no blog) guarda semelhanças com “Rosetta”. Sim. O enredo é quase parecido, porém, a manifestação da revolta encontrada por cada uma das protagonistas é bem diferente. Rosetta é bem mais resistente que Íris, a protagonista do longa finlandês. Sim. Enquanto Íris se vinga de todos aqueles que já a humilharam um dia na vida, Rosetta deseja apenas um emprego, anseia a normalidade. Rosetta quer ser igual a todos. Ela não medirá esforços para isso. “Primeiro a barriga, depois a moral”, ironizou Brecht. Sim. Numa sociedade toda feita contra ela, Rosetta precisa ser esperta, ao longo do filme acompanhamos a modificação do pensamento da menina. Ela que desejava alcançar um emprego de maneira digna, aprenderá que as coisas não são bem assim. Não. Subir alguns degraus na vida, exige certa dose de “imoralidade”. Rosetta aprenderá a lição. Mas qual o preço que ela irá pagar?

 

Numa cidade toda feita contra ela, o amor, a amizade, o respeito é quase impossível. Utópico. As pessoas precisam sobreviver. De qualquer jeito. De qualquer maneira.

 

Numa das cenas mais duras de todo o filme, Rosetta vai desejar a morte do amigo/quase namoradinho para conseguir o lugar dele numa pequena venda de rua. Ele é o único cara que a trata de maneira diferente. Ele hospeda-a em sua casa, quando ela está brigada com a mãe. Dá comida, cerveja para ela. Tenta ensiná-la a dançar. Mas não dá pra retribuir tudo isso. A Vida é mais urgente. A sociedade do consumo exige que Rosetta passe por cima de tudo isso para conseguir o tão sonhado emprego.

Aliás, toda a seqüência passada na pequena habitação de Riquet é extremamente dolorida. Sim. O rapaz é igualmente pobre. Mas mora numa casa. Não num trailer. Ele tem comida. Tem cerveja. Já foi campeão de ginástica solo. E toca bateria numa banda. Tudo tão pouco. Mas ele tem uma vida melhor que a dela. Ela nem ao menos sabe dançar. Ele tenta ensiná-la. Ela não consegue aprender. É desengonçada, dura demais. A cena da dança é quase lírica. Quase alegre. De repente, não mais que repente, a dor no estômago que acompanha a garota quase sempre, ataca de novo. “Eu desprezo as pessoas que são incapazes de sentir o seu estomago”  disse Galileu Galilei da peça de Brecht. Rosetta , então, pega suas coisas e sai. Mas esquece das botas e volta. Ela não quer voltar para a casa e encontrar a mãe bêbada. Ele cede a casa novamente para ela. Arruma um canto para ela dormir. Ela tenta dormir. Antes de cair no sono, Rosetta conversa consigo mesma. Numa quase oração. Num quase desespero.

 

“Seu nome é Rosetta. Meu nome é Rosetta. Você encontrou um trabalho. Eu encontrei um trabalho. Você tem um amigo. Eu tenho um amigo. Você tem uma vida normal. Eu tenho uma vida normal. Você não vai cair na rotina. Eu não vou cair na rotina. Boa Noite. Boa Noite.”

 

Na hora me lembrei de Macabéa do livro “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector afirmando para si mesma ao acordar: “sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola.”

Também lembrei da conversa consigo mesmo de  Fabiano em “Vidas Secas” do grande Graciliano Ramos:

 

“- Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.

Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.

Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:

- Você é um bicho, Fabiano.”

 

Sim. Rosetta também é um bicho. Só que diferentemente de Fabiano que deseja conquistar horizontes maiores na capital, Rosetta deseja apenas ser uma menina ocupada em guardar as coisas dos outros.



Escrito por Mateus Barbassa às 15h40
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A Garota da fábrica de caixas de fósforo

"A Garota da fábrica de caixas de fósforo” do diretor finlandês Aki Kaurismäki é uma fábula moderna sobre a condição da bondade.

Sim. Assim como “Cinderela”, “Branca de neve e os setes anões”, “Rapunzel” e tantas outras obras consideradas infantis que retratam personagens bondosos sofrendo nas mãos dos maldosos, para só lá no final aparecer um príncipe encantado e livrá-las de todo o mal. Amém. Não. Em “A Garota da fábrica de caixas de fósforo” não há espaço para esse maniqueísmo e muito menos para um final feliz. Não.

Afinal, como exercer a bondade num mundo predominantemente mau?

Íris é um garota que mora com os pais numa casa bem humilde. Ela trabalha numa fábrica de caixas de fósforo e todo o dinheiro que ganha, entrega nas mãos dos pais. Ela cozinha, lava e passa a roupa enquanto seus pais assistem o noticiário. Às vezes, ela sai para dançar. Só que nunca é escolhida por ninguém para o grande baile. Até aqui se passaram aproximadamente treze minutos e nem uma só palavra saiu da boca desses personagens. O diretor Aki Kaurismäki demonstra um domínio absoluto do tudo aquilo é silenciado. Não é um silêncio de filme mudo. Muito pelo contrário. É um calar-se. Como se algo ao ser expressado pudesse fazer ruir com o mundo todo. Kaurismäki apresenta um mundo maquinal, frio e miserável. A cena de abertura é uma demonstração genial desse ponto de vista adotado pela direção. Nela, vemos inúmeras máquinas trabalhando na fabricação das tais caixas de fósforos do título. O processo é mostrado por inteiro. Quando as caixas estão prontas, embaladas e seladas, eis que surge Íris. Ela também é uma parte da engrenagem mecânica da fábrica. Sim. Ela também é uma máquina. E é apenas mais uma. E talvez seja até mais insignificante e dispensável do que as outras máquinas. Sim. Assim como Macabéa de “A Hora da Estrela”, Íris “nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável”. Um belo dia, após ser dispensada pelos homens no baile, ela intui que o motivo de tal rejeição seja suas roupas, e em posse do salário que acabara de ganhar, compra um belo vestido novo. Ao chegar em casa com o vestido, apanha do pai e é obrigada a devolvê-lo pela mãe. Ela não cumpre o desejo da mãe e vai para o baile com o vestido novo. Lá é cortejada por um homem mais velho. Dança com ele e até mesmo aceita o convite para conhecer a casa do tal homem. Lá, após manter relações sexuais com ele, é tratada como uma prostituta. Sim. Ele é casado e não quer nada com ela. “Se acredita que há algo entre nós dois, está muito enganada. Nada me encanta tão pouco quanto o seu amor. Agora, deixe-me”. Sim. Mais uma rejeição. O problema não é o vestido. É ela. “No fundo ela não passara de uma caixinha de música meio desafinada”. Sim. Novamente Clarice. Novamente Macabéa. Mas não só. Íris e sua procura ingênua pelo verdadeiro amor  encontram parentesco em Cabíria do filme de Fellini. Já a decisão moral tomada pela personagem depois de tantas rejeições é parecida com a de Chen Te, protagonista da peça “Alma Boa de Setsuan” do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. “Como posso ser boa se tenho que pagar o aluguel ?” indaga a personagem brechtiana.

Tanto na peça de Brecht quanto no filme de Kaurismäki, o que fica claro é que a pessoa boa para sobreviver precisa colocar uma máscara de maldade e agir de modo coerente com esta faceta. Sim. Numa sociedade capitalista, maquinal e fria, a bondade é impossível. E o amor nada mais que uma mercadoria. “Quem poderá por tanto tempo recusar a maldade quando morrem os esfomeados?” Sim. Há alguma coisa que não vai bem no nosso mundo. Afinal, que vida é essa? “Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?” E o grito fica parado no ar. Sim. Todas essas personagens (Íris, Cabíria, Macabéa, Chen Te) não são satisfatórias. A verdade não está nos filmes, nos livros, nos palcos. Não. Está na vida real. É preciso que o espectador/leitor tire suas conclusões e aja. “Prezado público, vamos busque sem esmorecer! Deve haver uma saída: precisa haver, tem de haver!”

Sendo assim, o filme não termina nunca. Nós (espectadores) somos também Iris, Cabíria, Macabéa e Chen Te tentando sobreviver num mundo insensível, miserável, cruel e injusto.

“O homem sabe roubar, sabe matar.

Mas tem um defeito:

Sabe pensar”.

Mais uma vez Brecht nos provoca, nos inquieta. Sim. Se cabe ao homem bom vestir a máscara da maldade para viver num mundo mau, como fica a consciência dele? O que fazer então? Cruzar os braços? Bater a cabeça até sangrar? Dar a outra face? Calar? Gritar? Olho por olho, dente por dente? Metralhar todo mundo? Dar veneno de rato para quem nos rejeitou?

São possibilidades. Inúmeras.

Mas, lembrando: o filme nunca acaba quando termina.

Como já disse: “A Garota da fábrica de caixas de fósforo” é uma fábula moderna. Uma fábula desgraçadamente trágica.



Escrito por Mateus Barbassa às 17h27
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